Endividamento, saúde e mulheres: uma relação que vai além dos números

O endividamento das famílias vai muito além dos números e dos boletos em atraso. Ele atravessa o corpo, a mente e as emoções, especialmente das mulheres, e, por extensão, impacta o desempenho socioeconômico do país. Do ponto de vista econômico, quando o dinheiro deixa de dar conta do básico, isso afeta o consumo, a poupança e gera externalidades negativas em saúde pública, refletindo-se em custos sociais elevados, produtividade reduzida e maior demanda por serviços de saúde.

Na vida real, o endividamento constante costuma vir acompanhado de um estresse financeiro silencioso e persistente, que se traduz em consequências fisiológicas e psicológicas capazes de reduzir a capacidade de trabalho e a qualidade de vida. Para muitas mulheres, esse estresse se soma a múltiplas responsabilidades: casa, filhos, trabalho e o cuidado com outros, quase sempre colocando a si mesmas em último lugar. Esse estresse prolongado está associado à ansiedade, depressão, insônia e a outras disfunções somáticas que, quando não cuidadas, podem evoluir para doenças cardiovasculares e outros problemas debilitantes, ampliando os gastos públicos e privados com saúde. Estudos internacionais indicam que pessoas endividadas apresentam probabilidade significativamente maior de relatar pior saúde mental e física em comparação àquelas sem dívidas, além de maior propensão a transtornos relacionados ao estresse.

No Brasil, dados oficiais e pesquisas confiáveis revelam um impacto preocupante do endividamento na saúde da população. Segundo levantamento da Confederação Nacional de Dirigentes Lojistas (CNDL) e do SPC Brasil, 82% dos brasileiros com contas em atraso relatam algum efeito negativo na saúde física ou mental decorrente das dívidas, incluindo alterações no sono, no apetite e o aumento de sentimentos como ansiedade e angústia. Esses sintomas são ainda mais frequentes entre mulheres, que costumam internalizar a culpa e o medo de “não dar conta”. Complementarmente, pesquisa da Febraban aponta que 77% dos brasileiros endividados afirmam que o endividamento afeta sua saúde emocional ou sua qualidade de vida.

Esses números não dizem respeito apenas a escolhas individuais, mas revelam um fenômeno macroeconômico. Quando uma parcela significativa da população, especialmente mulheres, sofre desgaste de saúde em razão do estresse financeiro, os efeitos se manifestam em menor produtividade, maior absenteísmo no trabalho e elevação dos custos para o sistema de saúde. Trata-se de um impacto coletivo que, muitas vezes, nasce de dores vividas em silêncio dentro de casa.

Sob a ótica econômica, a relação entre dívida e saúde é bidirecional. A deterioração do bem-estar físico e mental gera custos indiretos, como redução de renda e menor participação no mercado de trabalho, e custos diretos, relacionados a tratamentos médicos. Forma-se, assim, um ciclo no qual o endividamento agrava a saúde e a piora da saúde dificulta a recuperação financeira. Romper esse ciclo exige mais do que números e planilhas: exige informação, acolhimento e caminhos possíveis para que mulheres reconstruam sua relação com o dinheiro, com mais consciência, autonomia e sem culpa.

Escrito por: Cátia Ferreira

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